Cervejas

A cerveja, o padeiro e o boi

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Sendo a cevada um dos principais ingredientes usados na elaboração da cerveja, seria natural imaginar que há uma disputa pelo ingrediente entre o mestre cervejeiro e o padeiro, certo? Mas não é bem isso. Entre eles rola até um ditado que é mais ou menos assim: “o cervejeiro e o padeiro não pensam de maneira igual”. Trocando em miúdos, apesar de o pão de cevada ter sido consumido durante séculos, a farinha resultante da germinação artificial desse cereal (malte) não é muito legal de se mastigar, pois a casca que envolve o grão é muito grossa e, mesmo quando triturada, deixa resíduos no pão. Não por acaso, a cevada tem utilidade restrita para fins alimentícios. E foi por conta dessas restrições que vários decretos determinaram, no passado, que a cerveja fosse feita somente com cevada.

Ou seja, naqueles tempos bicudos do começo de tudo, quando era muito difícil o cultivo de grãos, o uso da cevada para a produção de cerveja garantiu o pão de cada dia do povo. Mais um motivo para os cervejeiros se orgulharem!

O grande consumidor de cevada, pasme, não é o cervejeiro. De cada oito grãos de cevada produzidos no mundo, seis deles são consumidos pelo boi. É de deixar o queixo caído não?

E, assim como não há competição pelo ingrediente entre o cervejeiro e o padeiro, não há também entre o boi e o cervejeiro, pois a cevada usada para fabricar cerveja é de variedade diferente daquela consumida pelo boi. Mesmo considerando-se que, em todas as partes, produtores de cevada tentam plantar as espécies mais adequadas à produção de cerveja, pois elas alcançam preços mais elevados do que a destinada à ração animal. No Brasil, o grão passou a ser produzido em escala comercial por volta de 1930, e desde então só tem sido explorado o tipo de cevada próprio para a produção de cerveja. Como se pode ver, cervejeiro e boi não são concorrentes. Eba! Outro viva!!!

E não é para menos que beber cerveja já era considerado como uma marca da civilização desde a primeira narrativa sobre a história da humanidade, por volta de 3400 a.C.. Babilônios afirmam em lendas que a atividade agrícola é um pressuposto da condição humana e se consideravam seres humanos por apreciarem pão e cerveja.

Consideração que continua verdadeira e, por que não dizer, muito mais deliciosamente humana quando a atual civilização cervejeira a repaginou, acrescentando o churrasco à dupla. Afinal, convenhamos, não há como não apreciar o moderno trio “cerveja, pão e churrasco”….

Nada disso teríamos para contar se o nobre trigo, que resulta na fina farinha que conhecemos, desse em abundância. Talvez a cevada fosse um grão tão nobre que teria uma data especial para ser comemorada. Afinal, é da natureza humana valorizar o que rareia e desprezar o que abunda.

Com a criação da lei de pureza alemã, inverteram a coisa de maneira que a maioria dos bebedores de cerveja passou a acreditar que as cervejas de cevada são mais nobres do que as de trigo. Nem uma coisa e nem outra. E, para o caso brasileiro, as duas são nobilíssimas, pois não somos autossuficientes em nenhum dos dois tipos de grão.

Seja como for, em 10 de novembro celebramos o dia do trigo pois, para o mundo, ele ainda é o grão mais importante. O cervejeiro e o boi certamente não pensam igual.

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Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.