Cachaças

Aluga-se jabuticabeira

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A jabuticabeira é uma arvore nativa da Mata Atlântica que se espalhou espontaneamente para várias regiões do Brasil, com maior frequência nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. Ao todo, são 15 as variedades de jabuticabeiras e, segundo seus apreciadores, cada uma delas tem uma especificidade qualitativa incomparável à outra (sabará, a mais famosa; paulista, a que dá os maiores frutos; ponhema, esplêndida para geléias; e por aí vai…). Seus frutos são ricos em minerais como cálcio, ferro e fósforo, além de vitaminas C e algumas do complexo B. Apesar de não haver estudos conclusivos quanto às suas propriedades medicinais, suas qualidades antiinflamatórias, antiasmáticas e diuréticas são popularmente conhecidas.

Apesar do sabor tão apreciado e da abundância dos frutos que oferece a cada floração (de agosto a setembro e de janeiro a fevereiro), a jabuticabeira continua sendo uma árvore quase exclusiva de pequenas hortas e quintais. Um dos principais fatores que restringem a sua expansão comercial é a precariedade de conservação de seus frutos, que devem ser consumidos no mesmo dia da colheita, pois a fermentação começa praticamente na hora em que a jabuticaba é retirada do pé.

Por isso, diz-se que jabuticaba boa é chupada no pé. Daí a fruta estar associada à memória afetiva dos brasileiros e, especialmente, à infância de todos aqueles que moraram em casas com quintal. Em “Menino Antigo”, o poeta Carlos Drummond de Andrade dá a dimensão deste prazer: “Atrás do grupo-escolar ficam as jabuticabeiras. Estudar, a gente estuda. Mas depois, ei pessoal: furtar jabuticaba. Jabuticaba chupa-se no pé. O furto exaure-se no ato de furtar. Consciência mais leve do que asa ao descer, volto de mãos vazias para casa”.

Ciente das diabruras que meninos podem fazer por um pé de jabuticaba carregado, o senhor Geraldo Barbosa (um mineiro de boa prosa e muitos causos que tenho a felicidade de conhecer) alugava para a família três pés do pomar do vizinho. É isso mesmo: alugava. Depois que a grande família Barbosa devastava os pés do próprio quintal, partia para os pés alugados do vizinho. Enquanto o Sr. Geraldo me contava esta passagem, um dia destes, pude ver passando nos olhos de seus filhos, também presentes, a infância saborosa e generosa. Todos voltaram a ser meninos.

Hoje em dia, o aluguel de jabuticabeiras é uma característica do Festival da Jabuticaba, que acontece todos os anos, entre outubro e novembro, em Sabará (MG).

A infinidade de produtos derivados da fruta é impressionante. Geléias, bombons, balas, tortas, cocadas, sorvetes, recheios, licores…Aliás, tenho uma receita de licor que prometi não ensinar a ninguém, mas, em tempos de Procon, até promessa tem prazo de validade – e esta acabou de vencer. Ingredientes: um quilo de jabuticaba, uma garrafa (750 ml) de cachaça branca ou álcool de cereais a 40° GL, uma garrafa (750 ml) de água mineral; 750g de açúcar mascavo, dois paus médios de canela, dois cravos-da-índia e dois pedaços de carvão. Modo de preparar: esmague bem as jabuticabas, passe para um vidro grande de boca larga que tenha tampa, junte a canela, o cravo, a cachaça (ou o álcool de cereais) e o carvão.Tampe e deixe repousando, mexendo diariamente com uma colher de pau. No 13º dia, acrescente o açúcar e a água, misture bem e tampe novamente. Após 24 horas, coe a bebida em um filtro de papel ou pano. Em seguida, engarrafe e conserve na geladeira. Pode ficar fora, porém é mais gostosa quando servida gelada.

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Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.