Cachaças

Bendito seja o quentão

Por  | 

Festa joanina. Era assim chamada a festa do Dia de São João, 24 de junho. Com o passar do tempo, o povo juntou em uma festa só as comemorações dos santos Pedro (dia 29) e Antônio (dia 23). E as celebrações passaram a ser chamadas de festas juninas. No Nordeste do Brasil, ela é conhecida por São João e se tornou o jeito que o povo, castigado pelas secas, encontrou para agradecer a São Pedro e a São João pelas chuvas trazidas para a lavoura. A data coincide também com a época de colheita do milho, daí serem o milho cozido, a pamonha e a canjica iguarias que não podem faltar nos festejos. Nas cidades do interior da Bahia, é costume os festeiros saírem em grupos, batendo de porta em porta, perguntando “São João passou aí?”. Quando a resposta é “passou!”, a porta da casa é aberta para o grupo, que entra para comer e beber o que o dono oferecer. Quando São João não passa é porque os donos da casa nada têm a oferecer.

A parte sólida do cardápio varia consideravelmente de casa para casa. Já a parte líquida é sempre a mesma: licores caseiros de jenipapo, tangerina, cupuaçu etc. Lá pela terceira casa, você não quer nem saber quem está passando onde ou por quê! (Fiquei com a certeza de que o costume de colocar Santo Antônio de castigo de cabeça para baixo surgiu depois de um São João no interior do Nordeste). Já nas grandes cidades e capitais da região, a festança é bem maior e diferente. Caruaru, em Pernambuco, consta no “Guinness”, o livro dos recordes, como a maior na categoria festa country (regional, caipira) ao ar livre.

Nas demais regiões e estados, como São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Goiás, elas são conhecidas como quermesses. Onde, além da comilança, há muita dança de quadrilha em volta da fogueira. A fogueira, aliás, é considerada o maior símbolo das comemorações juninas, e a explicação vem a partir de um trato feito entre as primas Isabel e Maria, mãe de Jesus. Para avisar Maria sobre o nascimento de São João Batista e assim ter seu auxílio após o parto, Isabel acendeu uma fogueira sobre o monte.

Seguindo minha lógica, inventei a seguinte história: uma mulher que acabara de parir não subiria morro algum. Suponho, portanto, que Maria mandou o pai de João fazer a fogueira para avisar a prima. Imagine se o pai de um recém-nascido poderia ficar sozinho, aflito e à toa naquele morro esperando a fumaça subir? Acho que, antes de sair, ele pegou um caldeirãozinho, uma ânfora com água e uma lata com ervas para fazer um chá, só para aproveitar o fogo. Qual não foi a surpresa do homem quando abriu a ânfora e percebeu que, distraidamente, havia trocado a ânfora de água pela de vinho? Não tinha mais tempo para voltar e desfazer o engano. Daí ele inventou o vinho quente, que o brasileiro transformou no delicioso quentão, e que se faz assim: coloque uma xícara de açúcar em uma panela e deixe derreter. Quando a calda estiver dourada, acrescente duas xícaras de água, misture bem, junte dez fatias de gengibre, seis de limão e dez de laranja, todas bem fininhas. Coloque, então, três ou quatro paus de canela e seis cravos-da-índia. Deixe ferver por 20 minutos e, em seguida, acrescente uma garrafa de cachaça. Abaixe o fogo e deixe cozinhar por mais dez minutos. Coe para uma chaleira que deverá ser mantida próxima à fogueira ou em banho-maria, para a bebida ser servida quente. Se preferir o quentão mais fraco, aumente a quantidade de água. Para fazer o vinho quente, substitua a cachaça por um vinho tinto seco, e as fatias de limão por pedacinhos de maçã.

Boa quermesse!

Deixe seu Comentário!

comentários

Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.