Cafés

Cafezinho é coisa de anfitrião

Por  | 

Lembro de uma história mais ou menos assim: segundo a mitologia grega, Zeus estava à toa na vida e resolveu fazer um filho. Para concebê-lo, escolheu a esposa de Anfitrião, a senhora Alcmena Anfitrião. Como parte do plano, num dia em que o marido da eleita estava lutando em Tebas, obrigou seu escravo, o senhor Sósia, a assumir a forma de Hermes, escravo do palácio de Anfitrião.

Mesmo com todas as precauções contra a maledicência do povo, quando a barriga de Alcmena começou a crescer, a ficha de Anfitrião caiu, e deu-se a confusão. Aí, Zeus desfez a intriga de modo tão diplomático que Anfitrião ficou orgulhoso de ser o marido da escolhida para gerar o semideus Hércules. E foi assim que “sósia” passou a significar “cópia humana” e “anfitrião” ganhou o significado de “aquele que recebe em casa”.

Se verdadeira ou não, a história mostra que, para ser um bom anfitrião, é preciso, antes de mais nada, que se tenha talento e vocação. E, pensando direitinho, os brasileiros são anfitriões natos. Está aí o cafezinho para provar. Não há casa brasileira, seja ela de rico ou pobre, em que ao visitante não seja oferecido um cafezinho. Até mesmo quando a visita é inesperada ou desagradável, lá vem a oferta de um cafezinho. O poeta e grande anfitrião Aníbal Machado, pai da Maria Clara, sintetiza com primor esse costume tão nosso no poema “Aceita um cafezinho?”. Já faz alguns quartos de lua, Margarida Nogueira e eu fizemos um Festival do Café e usamos o poema na capa do cardápio que, claro, era composto de fio a pavio com receitas de….café! Qualquer hora vou encontrar na montanha de papeis e publico. Por enquanto, compartilho uma receita bem gostosa da qual ainda lembro, sem ter que escarafunchar meus alfarrábios.

Bela Tarde: uma dose de licor de café, duas doses de café sem açúcar, seis ou sete grãos de uvas-passas, três bolas de sorvete de baunilha e uma dose de uísque de sua preferência. Coloque todos os ingredientes no liquidificador, reservando o sorvete, bata tudo até que as passas estejam liquidificadas e, em seguida, coloque as bolas de sorvete e bata na função pulsar. Sirva em taças para milk-shake, com canudinhos.

Mesmo que hoje sua intenção não seja a de ser anfitrião e, menos ainda, de brincar de Zeus indo visitar os amigos, recomendo reservar aquela sobra de café de todas as manhãs para logo mais, à tarde. Prepare seu drinque e vá bebê-lo apreciando a elegante maneira como o Sol, nosso anfitrião de todas as manhãs, parte sem dizer adeus.

Deixe seu Comentário!

comentários

Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.