Vinhos

De Dom Pedrito para o Nordeste, com amor

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Conheci Dom Pedrito quando fui visitar os vinhedos da Dunamis. Na verdade, os novos vinhedos, pois tinham acabado de replantar vários hectares de um determinado tipo de vitis no mesmo lugar, um vitis da espécie cabernet sauvignon. Eles já tinham alguns vinhos brancos e tintos prontos de outros vinhedos, e com eles fizeram uma tremenda festa no clube local. Na região, já existiam alguns produtores, a maioria de arroz, que, como brincavam a época, cansaram de ganhar dinheiro com grãos e resolveram perder dinheiro com vinho.

Guatambu | Deise Novakoski

Bah tché, que nem queria entrar na discussão! E me diverti de largo com as brincadeiras e modo de falar local, inclusive com a lenda do porquê de a cidade ter aquele nome. Dizem que, na Campanha Gaúcha, quando o Brasil faz fronteira com o Uruguai, Dom Pedro não conseguiu erguer boa proteção, e por lá passavam muitos contrabandistas, os “Hermanos de Pedrito”, como eram chamados na época. Pelo sim ou pelo não, no meio da praça tem um busto de Dom Pedro, exatamente onde essa história me foi contada.

De Porto Alegre até Dom Pedrito são 441 km. Hoje, a viagem dura de quatro a cinco horas. Em 2005, foram nove, com direito a dois cochilos do motorista no trajeto. Tensos, ansiosos e com muitas coisas para fazer e assimilar, já que na manhã seguinte seguiríamos viagem, depois da palestra, das visitas aos vinhedos e ao busto de Dom Pedro, algumas tagarelices e umas taças na festa, sentia-me pronta para ir para o berço. Só que a festa estava no meio, então surgiu uma moça muito gentil que me ofereceu carona. Para que eu fiz essa miséria???

Com simpatia proporcional à sua beleza e altura, ela me levou para conhecer a cave de seu pai e todo o projeto da vinícola que um dia existiria ali. Abriu uma garrafa e me deu uma prova. A boca cansada, a língua feito lixa: o vinho parecia pedra. Na minha cabeça passavam ideias desconexas, como: “Vou fingir um desmaio”. “Vou dizer que ela se enganou, eu sou provadora de gasolina”… Por minutos, que duraram a eternidade da vida de Baco, ela falou sem parar. Até que me ofereceu uma caixa com algumas garrafas do vinho. Agarrei-a, como DiCaprio pegou aquele isopor em “Titanic”, sentei-me no banco do carona, debrucei-me na caixa e dormi. Para não ficarem mágoas e nem ressentimentos, esqueci o nome da moça. São três irmãs. Procurei não provar os vinhos e deixei o tempo passar. Só não deu para esquecer o nome da vinícola, claro!

No carnaval, lá estavam os espumantes deles sendo servidos no bloco Espumas e Paetês – sucesso absoluto. Estiquei o braço, como se fosse uma porta pantográfica, para pegar uma taça e provar.

Hum, bom! Bom! BOM! Mais uma, por favor!

Pedi, e o Oscar Daudt me mandou as informações logo depois do carnaval: “Conforme conversamos no bloco, envio a lista dos vinhos da Guatambu que temos em nossa loja (e o site da loja é www.loja.enoeventos.com.br):

  • Espumante Guatambu Extra Brut Champenoise
  • Espumante Guatambu Nature Champenoise
  • Espumante Guatambu Rosé Champenoise
  • Espumante Poesia do Pampa Brut Champenoise
  • Guatambu Rastros do Pampa Tannat 2013
  • Guatambu Rastros do Pampa Cabernet Sauvignon 2013

Guatambu | Deise Novakoski

Butuca ligada, comecei a esticar a mão e pegar outras taças da Guatambu, uau! Estão muito boas também.

Pedi umas fotos, e lá estavam as meninas, crescidas e ainda mais lindas, algumas com bebês. A vinícola pronta, exatamente como planejaram.

Recentemente, quem começou a vender diretamente ao consumidor toda a linha foi a Vinum, gracinha de loja na Praça da República 13, loja 19, com acesso também pela Rua do Senado, 108.

Contatos diretamente com Ataide Venâncio, pelo telefone (21) 99355-9749 ou ataide@vinumrio.com.br

À parte a história atropelada de como conheci os vinhos da Guatambu, os vinhos da região como um todo têm uma peculiaridade e uma vocação que me deixam muito intrigada e com mais vontade ainda de viver até os 170 anos para ver tudo isso acontecer.

Guatambu | Deise Novakoski

Guatambu | Deise Novakoski

Justamente os vinhos feitos lá na fronteira do Brasil, quase com um pé no Uruguai, de onde sai a uva mais encorpada entre as tintas — a tannat —,  faz-se o vinho mais leve e refrescante que possivelmente será o vinho mais importante para a escalada da cultura do gosto do Norte e Nordeste brasileiros.

Boa semana para todos e até domingo que vem!

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Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.