Vinhos

De repente, 40

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Estávamos no apagar das luzes dos anos de 1970 quando conheci o senhor Antonio Dal Pizzol. Ele, por gentileza e educação, sua marca registrada, diz que me pegou no colo naquela época. Mas a verdade é que ambos estávamos trabalhando. Eu no escritório da Trattoria Torna, na esfuziante Rua Maria Quitéria, 46, em Ipanema, no Rio de Janeiro, enquanto o senhor Antônio era o homem “Do Lugar”.

Do Lugar foi a primeira linha de vinhos feita pela vinícola Monte Lemos, e foi com ela debaixo do braço que o Toninho – como todos chamam o Sr. Antônio lá no Sul – chegou aqui ao Rio. Nunca ninguém tinha visto o dono do vinho dar as caras. Ninguém imaginava como seria o dono de um vinhedo e nem sabia que o nome da profissão do homem que planta uva e faz vinho é vitivinicultor.

O pessoal de Ipanema ia e vinha de Paris com uma tremenda facilidade, falava de moda e alta costura, sabia tanta coisa. Até o Lauro Corona era vizinho da Trattoria, imagina! Poderia se estar mais no olho do mundo do que estar em Ipanema? E aparece o “Toninho” com uma tremenda novidade, vendendo vinho personalizado. Nos rótulos, vinha o nome da pessoa. Rapaz, aquilo foi uma bomba que estourou e fez tanto sucesso quanto a novela “Dancing day’s”: todo mundo queria sua garrafa com o próprio nome no rótulo.

De lá para cá, muitas coisas mudaram, várias pessoas nasceram e, inclusive, na minha cabeça surgiu um ninho branco que ainda quero saber quem pintou. Os irmãos Antonio e Rinaldo Dal Pizzol, ao contrário de mim, não se surpreendem com essa passagem do tempo. De maneira surpreendente e mágica, eles foram acompanhando e modernizando seus rótulos e produtos, fazendo outros e, inclusive, deixando para trás alguns. Faz alguns anos, a vinícola contratou o jovem enólogo Dirceu Scottá, hoje mimetizado aos Dal Pizzol. Seguem numa marcha continua e serena. Olhando para frente, eles deixam o passado exposto lá no parque que montaram e está aberto para visitações o ano inteiro. Nele, estão reunidas, além das memórias da família, vinhedos do mundo inteiro. Com as uvas colhidas, eles fazem, todos os anos, o vinho da paz. Quando estiver viajando por aquelas bandas, passe por lá e tome uma taça com eles. Você nunca mais vai esquecer.

Espumante Dal Pizzol Quarenta Anos Nature

Espumante Dal Pizzol Quarenta Anos Nature

Para comemorar os quarenta anos da vinícola, o trio Rinaldo, Toninho e Dirceu preparou o espumante Dal Pizzol 40 Anos Nature. Dentro desta elegantíssima garrafa que você vê aí na foto está um vinho que vai muito além da aparência. O Dal Pizzol 40 Anos Nature foi elaborado com uvas chardonnay, o que lhe dá elegância e finesse, e com a pinot noir (vinificada em branco), que confere ao vinho corpo, estrutura e persistência. O vinho sofreu segunda fermentação em garrafa, e o método Traditionelle ou Champenoise foi respeitado em cada mínimo detalhe. Explico, em linhas bem genéricas, os principais deles só para que se tenha uma ideia do zelo. Vamos pular de ano por bom comportamento e deixar de lado como os enólogos conseguem fazer a misteriosa seleção do vinho base para dar início à segunda fermentação (prisse de mousse), durante a qual a pressão dentro da garrafa, que é onde ela acontece, pode chegar a 6kg/cm² e, portanto, deve ocorrer preferencialmente em cave subterrânea cuja temperatura gire em torno de 10°C, durando cerca de 60 dias. Ao final, as garrafas são colocadas para descansar, deitadas por aproximadamente um ano. Depois, elas vão para os pupitres, onde acontece o “remuage“. Ou seja: as garrafas são colocadas em armações de madeira em formato de pirâmides, a fim de que as leveduras deslizem para o gargalo. Para que isso aconteça, elas são giradas manualmente, 1/4 de volta todos os dias, por um período de aproximadamente um mês, a fim de que o resíduo vá todo para o gargalo. Por fim, é feito o “degorgement“, processo em que o gargalo é congelado, a tampa é retirada e, pela pressão interna da garrafa, o resíduo sólido sai automaticamente. Na sequência, são colocados o “licor de expedição”, a rolha de cortiça e a gaiola de arame. A garrafa é posta em descanso novamente, por 15 dias, depois rotulada e colocada para a expedição.

Pelo conjunto de seus ingredientes e metodologia em produção, além dos 40 anos por trás de tudo isso, já se pode perceber que não se trata de um vinho para o dia a dia. Precisa de uma situação mais privilegiada que o acompanhe, digamos assim. Um ótimo companheiro de entradas mais caldalosas, sopas de cebola, cogumelos e creme de castanha portuguesa com shitake. Aproveite o outono, este espumante merece ver as folhas caírem ao seu lado.

Uma ótima semana, até domingo que vem. Beijão em todos!!

 

Onde Encontrar

Delly Gil
Rua Gilberto Cardoso, S/N | Cobal do Leblon | Rio de Janeiro | RJ
(021) 2294-1151 e 2529-2222
www.dellygil.com

 

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Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.