Vinhos

É proibido cuspir

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Em degustações ou feiras, levo sempre a minha cuspideira encaixada no sovaco. Minha roupa de trabalho é preta, e o equipamento também. Por isso, a grande maioria nem repara. Mas, quando reparam, ouço todo tipo de comentário. E chegam a pedir para fotografar o objeto. Passado o primeiro momento da descoberta, segue uma conversa que sempre caminha para a mesma direção: o nojo que sinto de cuspir em cuspideiras coletivas.

Eu e minha cuspideira

Eu e minha cuspideira particular

Hoje, assistindo ao excelente documentário Somm: Mestres do Vinho, exibido na Sessão Philos – Globosat Play (assista aqui) –, fiquei com pena da esposa de um dos sommeliers declarando o nojo que sentia das cuspideiras, quando tinha que limpá-las no dia seguinte, após uma noite de treino para a prova. Não sei se ouvi demais, mas fiquei com a impressão de que o nojo dela, hoje em dia, estendeu-se para os copos.

Cuspideiras individuais

Cuspideiras individuais de cerâmica da Luis Felipe Edwards ( este modelo é bastante comum no Chile)

Compreendo a moça tão bem que tive vontade de mandar panos esterilizados, álcool gel e mais uma traquitana de coisas do gênero que carrego para degustações, oficiais ou não. Nas oficiais, entenda-se por profissionais, é obrigatório cuspir. Aquele que não o fizer pode ser desclassificado, no caso de uma avaliação técnica. Já se o profissional está em uma feira fazendo captação de produto e estiver deglutindo todas as amostras, com certeza sua avaliação ficará prejudicada, e o fígado também.

Cuspideiras

Cuspideiras individuais de cerâmica da Vinícola Undurraga, também no Chile. Como eu disse, lá são muito comuns

No meio tem uma turma que, com certeza, fica treinando a cusparada para impressionar, pois certamente ninguém nasce sabendo cuspir no alvo 60ml de vinho, e à distância. Creiam, tem gente que faz isso! Um irritante nojo, que a curiosidade não me permite fechar os olhos ou simplesmente virar o rosto para outro lado. Pior ainda quando resvala no meu sapato, e eu fico me maldizendo pela obscura curiosidade.

Já ranqueei e conclui que chilenos e franceses são os mais espetaculosos no quesito “cuspe de vinho à distância”. Argh !!! Porque eu penso nisso? Várias vezes degustadores sentados ao meu lado fizeram menção de usar o meu cuspidor, mas sou rápida, e tiro do alcance das mãos do incauto desavisado: “É meu! O da mesa é aquele ali” . Afinal, depois da 15ª amostra descartada num balde comunitário, quem não quer um cuspidor para chamar de seu?

Cuspideira Comunitária

Várias garrafas dos dois lados da mesa, e só um balde no centro para todos os degustadores usarem – nojo!

Por várias razões, não se usa descartar amostras de azeite, cerveja e destilados. A mais importante delas é que tais líquidos precisam passar pela garganta para que se possa avaliar o efeito desta passagem, e refluxo que dará. Valham-me meus santos do enjoo que não é preciso, pois antes de ter meu próprio equipamento não sei o que faria se tivesse que cuspir num balde cheio de espuma de cerveja ou com azeite boiando.

Certamente não teria terminado minha formação como sommelière!

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Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.