Coquetéis

Estilo Sinatra de beber e viver

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Dizem que programas combinados superficialmente, quando se encontra casualmente um amigo, são papo de carioca. Para não cair nesta esparrela, quando me convidam para algum programa, ainda que vagamente, pergunto logo: “Quando?”. Em meados de novembro, um amigo me mandou um e-mail querendo combinar um jantar ainda este ano. Peguei o telefone e fui dizendo: “Abre sua agenda e vamos ver em que dia poderemos marcar”. Data daqui, data de lá, surgiu um dia conveniente para ambos: 12 de dezembro. Fechado. “Onde?”, ele perguntou. “Na minha casa”, respondi. “Você tem alguma restrição alimentar?”, emendei. “Só não como carne vermelha à noite”, ressaltou ele. “Bacana! Deixa comigo”, fechei o programa. Antes de desligar, recomendei: “Marca na agenda, não vai esquecer”. E ele: “Como eu poderia? É o aniversário do Sinatra”.“Oba! Mais um motivo para comemorarmos. Traz os teus CDs do The Voice, pois eu só tenho dois”.

Se estivesse vivo, Francis Albert Sinatra completaria hoje 93 anos. Comecei a me perguntar: qual seria a bebida que ele escolheria para comemorar a data? E como ele sabia comemorar… Seus brindes invariavelmente terminavam em: “Que todos vocês vivam até os 400 anos de idade, e que a última voz a ouvirem seja a minha!”

Além de adorar a voz e o estilo elegantíssimos de Sinatra, tenho admiração por seu profissionalismo em relação ao álcool. Sempre me fascinou sua versatilidade para beber e saber escolher exatamente o quê, com quem e como. Para cada drinque, tinha uma regra. Seus martínis eram preparados com vodca no lugar de gim e duas azeitonas, que eventualmente eram divididas com os amigos em sinal de confiabilidade. Só os bebia antes do jantar. Quando eram preparados com gim, limitava-se a, no máximo, dois. Martínis depois do jantar, jamais – fossem tradicionais ou feitos à sua moda. Outro de seus drinques favoritos era o bloody mary, que só bebia pela manhã, como um despertador.

Segundo ele, o drinque de um cavalheiro era Jack Daniel’s, que deveria ser servido em copo tradicional de uísque com dois dedos do bourbon, duas ou três pedras de gelo e o resto de água. Aliás, água e gelo eram duas coisas que Sinatra odiava e amava, respectivamente. A primeira era considerada a coisa mais velha do mundo e, como ele odiava a velhice, costumava dizer que até no banho só usava club soda. Como o gelo fazia parte da lista de amores, eventualmente usava-o para jogar em alguém quando queria chamar sua atenção.

Quando o assunto era vinho, Old Blue Eyes era igualmente impecável: só bebia os muito bons e caros, garrafas que giravam em torno de mil dólares. Dizia: “Trabalho com afinco. Mereço isso”. E o que era “isso”? Os tintos deveriam ser, preferivelmente, Château Petrus, Château Mouton Rothschild e Gaja. Château Margaux, só no aperto. Os brancos que tolerava, em deferência à comida, eram Montrachet ou Carte Charlemaigne. Champagne, só bebia para agradar às mulheres: tomava um gole para brindar e depois abandonava a taça. Abandonar a taça era outro de seus talentos. Sabia como poucos circular em uma festa fingindo que estava bebendo o tempo todo, mas, na verdade, largava o copo em qualquer cantinho. Certa vez, Bill Zehme, da revista “Esquire”, perguntou a ele: “Qual é a cura mais confiável para uma ressaca?” Sinatra respondeu:“ Para começar, não beber.”

Em um de suas melhores frases definiu: “Só se vive uma vez. E da maneira que eu vivo, uma vez basta”.

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Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.