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Eu apoio o vinho brasileiro porque…

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Há cerca de três anos, a revista Bacco me fez uma pergunta cuja resposta não coube na íntegra na revista. Estreio nosso espaço com a versão original, pois considero que esta fala muito a meu respeito e de como tudo começou também. Para quem não me conhece, muito prazer, eu sou Deise Novakoski. Seja bem vindo!

Eu apoio o vinho brasileiro porque é um bom produto. Como sommelière profissional, não me cabem bairrismos e, menos ainda, afãs patrióticos. Meu compromisso é, antes de tudo, com o consumidor a quem meu trabalho se destina. Constantemente viajo em busca de vinhos de qualidade que possam atender aos muitos estilos de consumidor e faixas de poder aquisitivo. No momento em que estou escrevendo este texto, por exemplo, estou em um avião a caminho do Rio Grande do Sul, onde irei degustar vinhos de vários produtores do Brasil e fazer uma seleção para uma loja do Rio de Janeiro, a quem presto consultoria. A meta desta viagem é encontrar bons produtores, pelo menos dois em cada uma das regiões brasileiras mapeadas pelo Instituto Brasileiro do Vinho Ibravin). Hoje, estas regiões estão divididas em cinco: Vale do São Francisco, Planalto Catarinense, Serra Gaúcha, Serra do Sudeste e Campanha. Mas nem sempre foi assim. Em 1983, época em que comecei a estudar vinhos, quando o assunto era vinho brasileiro, só existia um destino: o Rio Grande do Sul e, mais especificamente, a Serra Gaúcha.

Naquele tempo, e ainda hoje é assim, parte da formação básica do sommelier, aqui no Brasil, era uma visita didática ao Sul. É onde temos, na maioria dos casos, nosso primeiro contato com as vinhas, com o viticultor, o engenheiro agrônomo e o enólogo. O primeiro vinhedo que vi ficava em Viamão, e era conduzido com mãos de ferro por Oscar Guglielmone. Seus vinhos eram puro artesanato e se destacavam por terem a qualidade do que hoje convencionamos chamar de “vinhos de garagem”. Oscar fazia tudo: do plantio à colheita, da vinificação ao engarrafamento. Da recepção aos grupos de estudantes e turistas até a venda final para os restaurantes – onde eu trabalhava à época, por mais de uma vez atendi o telefonema de Oscar avisando que o pedido havia sido despachado naquele dia. Em uma ocasião, ele tocou para lá por volta de 23h, avisando que a produção tinha sido afetada durante a fermentação por uma casse férrica (turvação durante a fermentação, devido ao elevado teor de ferro no vinho) e que, portanto, não poderia nos entregar seu vinho branco naquele ano. O italiano empreendedor deu a seus vinhos o nome de “Adega Medieval”. Eles rapidamente viraram lenda, e não há quem os tenha conhecido que não se lembre de um caso para contar sobre eles. Mas, infelizmente, com seu falecimento, tudo desapareceu. E, hoje, pouco se ouve falar até mesmo de Viamão – soube por alto que há um produtor por aquelas bandas, mas isto, convenhamos, não significa nada. Tendo em vista que a Adega Medieval existiu há mais de 30 anos, seria natural que a região fosse a sexta listada entre as cinco que existem hoje. Assim como assisti ao desaparecimento de um produtor e seus vinhos, venho acompanhando de perto o desabrochar de outros e o aparecimento de muitos rótulos e de várias regiões vitivinícolas com potencial. A maioria deles era de viticultores que plantavam uvas para vender às multinacionais que tinham instalações no país. De viticultores e anônimos fornecedores de matéria-prima para vinhos temerosos como Marjolet, Lejon e que tais, passaram a vitivinícultores quando começaram a produzir seus próprios vinhos e a dar a eles seus nomes de batismo. Rapidamente, o consumidor brasileiro viu surgir nas cartas de vinhos dos restaurantes rótulos com nomes de famílias, como Miolo, Valduga, Dal Pizzol, Boscato, Pizzato, Salton… Vi todos eles com suas garrafas embaixo dos braços, cruzando o país de Leste a Oeste e de Norte a Sul para divulgar seus vinhos. Também sou testemunha de quando eles colocaram seus filhos para fazer escola de enologia fora do país – porque aqui ainda não existia, contávamos apenas com um curso técnico de agronomia. Presenciei a volta desses meninos, cheios de energia e esperança por um país vitivinícola que fosse reconhecido internacionalmente. E, verdadeiramente, foi somente após eles terem atravessado as fronteiras que o Brasil ganhou um capítulo nos livros e guias especializados sobre a bebida. Também é verdade que alguns autores ainda cismam em nos embolar no capitulo “vinhos da América do Sul”. Sem problemas. Nossa história ainda está sendo construída, e temos uma longa jornada pela frente. Ainda que já se tenha mais de uma região reconhecidamente com potencial para a produção de vinhos finos, ainda é necessário saber quais são as castas que melhor se adaptarão em cada uma delas. E, como sabemos, um parreiral leva entre sete e dez anos para se mostrar adaptado. Somente depois deste tempo é que se poderá dizer se os vinhos produzidos com aquelas castas têm tipicidade ou não. Por isso, paciência e pesquisa são palavras de ordem na vida de todos aqueles que desejam viver de vinho em qualquer parte do mundo.

Em países emergentes como o Brasil, é preciso também que se tenha muita inquietação e curiosidade para descobrir novas regiões com solos potencialmente receptivos ao cultivo da vinha. Pois está provado por todas as análises de laboratório disponíveis até o momento que é a qualidade da uva que irá decidir o futuro qualitativo do vinho. Nossos enólogos mostraram, com o trabalho realizado com os espumantes nacionais, todo o potencial que o Sul do país tem para este estilo de vinhos. Demonstração feita, a marcha segue em busca de outras regiões com potencial para outros estilos de vinhos. E eu continuarei acompanhando cada passo desta história. Junte-se a nós, faça parte desta história!

 

Algumas Imagens de Vinícolas!

 

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Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.