Cachaças

O humor é uma cachaça

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Em 1994, a prefeitura de Paty do Alferes organizou o 1º Concurso Nacional de Charges, Cartoons e Caricaturas, cujo tema era “O humor é uma cachaça”. A comissão julgadora foi composta de membros da Academia Brasileira da Cachaça (ABC), formada nos moldes da Academia Brasileira de Letras: 30 membros, fardão e a missão de colocar a cachaça na sala de estar dos brasileiros. Como parte da agenda de trabalho da comissão julgadora, constava um almoço no restaurante Caçarola.

Eu e Albino Pinheiro – que era meu colega na ABC e na comissão julgadora – sentamos à mesma mesa e pedimos uma branquinha para começar. O dono do restaurante  nos serviu umazinha que ganhara de um amigo, e que nem tinha rótulo. Albino, além de ser o grande carnavalesco que todos conheceram, um dos fundadores da Banda de Ipanema e mentor do Projeto Seis e Meia, também era dono de uma memória invejável.

Tomou o primeiro gole e comentou: “Essa não é aquela que tomamos em Vassouras?”. Tentei lembrar e, para não me comprometer, respondi: “Não fui com vocês a Vassouras”. Albino embatucou, tinha certeza de que já havia provado aquela cachaça. Pergunta pra um e outro, de mesa em mesa, o burburinho chegou aos ouvidos do dono do restaurante. Este, cordialmente, explicou que talvez Albino estivesse fazendo alguma confusão, pois aquela cachaça lhe fora presenteada por um amigo, engenheiro, que não produzia comercialmente, só de brincadeira. Albino, homem elegante, finérrimo, calou-se.

Porém, quem o conhecia podia ver a dúvida passando em seus dos olhos. Em 1997, quando o engenheiro João Luiz Coutinho de Faria apresentou ao grupo da ABC sua cachaça finamente embalada e com o simpático nome de Magnífica, Albino se levantou e disse com toda a convicção que só os grandes de memória podem ter: “Foi esta cachaça que tomamos em Vassouras e foi a mesma que nos serviram em Paty do Alferes”. E era. João começara sua produção informal em 1985, e distribuíra para alguns amigos a bebida sem rótulo, pois o nome só apareceu anos depois, quando ele decidiu comercializá-la.

Ela é produzida na Fazenda do Anil, na divisa de Miguel Pereira com Vassouras, Região Serrana do estado do Rio. É claro que naquele tempo o Rio já era tão pequeno quanto é hoje e, obviamente, estando em Vassouras, seria pouco provável que João não tivesse um amigo que não fosse comum a um dos 30 da ABC. E foi assim que concluímos que não só Albino era o homem com a maior memória gustativa de nosso grupo, como também que João estava fazendo um produto marcante e de qualidade.

Alguns anos depois, atendi num restaurante a João e sua esposa, que gentilmente me deu a receita de uma caipirinha que reproduzo constantemente. Eu a preparo tantas vezes que chegam a dizer que é criação minha. Desminto.

Caipirinha Magnífica: meia laranja-pera ou bahia cortada em cubos; duas fatias de gengibre bem picadinhas; uma colher de sobremesa de açúcar; três a quatro pedras de gelo e 70ml de cachaça Magnífica branca (ideal para coquetéis).

Modo de preparo:
Corte a laranja em cubos regulares, desprezando o centro; coloque na coqueteleira com o gengibre e o açúcar; esprema com o socador de frutas;
acrescente o gelo e, em seguida, a cachaça. Bata vigorosamente e, depois, passe a mistura para um copo tipo on the rocks. Decore com canudos e um mexedor.

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Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.