Cervejas

O que amarga cura, o que aperta segura…

Por  | 

Faz muito tempo, assisti a uma entrevista de Caetano Veloso e Gal Costa no programa do Jô Soares, na qual os dois baianos declaravam, entre outras coisas do cotidiano, serem amigos de uma cerveja. Gal, inclusive, lembrava com clareza da primeira vez que colocou a bebida na boca — foi em um dia de muita fome na praia, e os amigos não decidiam para onde ir. Coisa de turma grande, sabe como é? E a tal da fome só ia apertando. Aí ela resolveu distrair o estômago com a bebida e ficou amiguinha da loura para sempre.

Caetano, por sua vez, como sempre, foi contraditório: disse que preferia cerveja porque é amarga, e que não gosta de sabor amargo. Entendeu? Nem eu. Mas ele explicou, ainda bem! Disse que gostava mesmo era de vodca, mas que, por razões óbvias relacionadas à idade, preferia pegar leve. Por esse motivo, bebia cerveja, pois, sendo amarga, não lhe trazia tanto prazer e, consequentemente, bebia menos.

Mas vejam só que coisa! Justamente o amargor que segura o Caetano a não ingerir demasiadamente a bebida é o centro das atenções nas degustações dos cervejeiros. O Internacional Bitterness Units (IBU), unidade de medida do amargor, é conferido à bebida pela adição de lúpulo, conservante natural que vem a ser o terceiro ingrediente mais importante na formulação de uma cerveja — os dois primeiros são água e malte.

Apesar de seu amargor, suas propriedades inebriantes foram logo percebidas. O lúpulo pode ser usado em quantidades que variam de 40 a 300 gramas para cada 100 litros de cerveja.

Para efeito de comparação, uma cerveja comercial costuma ter menos de dez IBUs, enquanto uma da categoria especial tem entre 40 e 70 IBUs. E há ainda aquelas de cervejarias artesanais que podem chegar a 100 IBUs. No momento, a mais lupulada está sendo produzida por uma cervejaria canadense e atinge a alucinante marca dos 2500 IBUs. Embora a lei de pureza determine que o uso do lúpulo seja obrigatório, há alguns estilos, em que o uso do lúpulo pode ser substituído por outras especiarias, como zimbro, funcho, cominho e tomilho. Especiarias e ervas que irão conferir à bebida tantas notas aromáticas quanto se fosse usado o lúpulo. Porém, ainda assim, haveria a perda de um tipo de relaxamento que somente a combinação lúpulo mais álcool é capaz de proporcionar.

O lúpulo é uma planta trepadeira noturna e, assim como o bambu, pode crescer dezenas de centímetros por noite. As melhores variedades são plantadas nas regiões de Hallertau e Tettnag, na Alemanha, e apresentam essências naturais aromáticas que vão do herbal ao floral, do frutado ao condimentando, permitindo que cada mestre cervejeiro tenha sua própria combinação, determinando o estilo do seu produto.

Lúpulo | Deise Novakoski

É claro que os mestres cervejeiros estão atentos aos desejos dos consumidores e, motivados por eles, criam novas receitas que se adequam às tendências do mercado.

Se por acaso alguém ai conhecer o Caetano, vale dar um toque nele: tem cerveja com IBU tão baixo que ele poderá chutar o balde sem sentir amargor nenhum.

E, para nós que que não nos intimidamos com o amargor e os IBUs, fica o mantra: “o que amarga cura e o que aperta segura”.

Boa semana para todos, beijos e até domingo que vem.

Deixe seu Comentário!

comentários

Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.