Coquetéis

Pancho se esqueceu do pulo do Gato

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Consta em vários livros e em inúmeros sites na internet que foi no dia 4 de julho de 1942 que Francisco Pancho Morales inventou a margarita. Com pequenas alterações, dependendo, é claro, do autor. Uma das versões que nos é contada é que estava Pancho polindo a coqueteleira no Tommy’s Place, um bar na cidade de Juarez, no México, quando adentrou uma linda mulher (nestes casos, elas são obrigatoriamente lindas…). Ela pediu o então conhecido coquetel magnólia (conhaque e licor de laranja batidos com gelo na coqueteleira, coados, em seguida, para uma taça de coquetel, e coroados com uma gema de ovo e uma dose de vinho espumante).

Dizem que Pancho não sabia fazer a receita e que, após uma piadinha e um trocadilho com o nome das flores magnólia e margarita, preparou para a linda mulher sua versão do drinque, que passou a fazer parte do “grupo crusta”. Ou seja, coquetéis servidos em copos com a borda passada em sal ou açúcar. Prepara-se assim: umedeça a borda do copo com uma fatia de limão, mergulhe em um prato com açúcar ou sal e dê uma leve batidinha para desprender o excesso. Os destilados usados para a preparação podem ser conhaque, gim, rum, uísque, tequila ou vodca, batidos na coqueteleira. A receita base é 2/4 de destilado, 1/4 de suco de limão e 1/4 de Curaçau.

A margarita ganhou o mundo, muitas versões e autores. Uma delas diz que seu inventor foi Danny Negrete, com a ajuda de Rob Garcia. Eles prepararam a receita como presente de casamento para a meia-irmã de Danny. Outro Danny, o Carlos Danny Herrera, também se diz autor do coquetel. Ele conta que o criou em outubro ou novembro de 1938, no bar Rancho La Gloria, em homenagem a Marjorie King, uma cantora que se apresentava no bar do Hotel Del Mar Del Coronado com o nome artístico de Rita De La Rosa. Diz Herrera que a moça era alérgica a todos os destilados, menos tequila, e, por isso, teria criado a mistura. Sem maiores explicações ou motivos, Margaret Sames, dona de um bar em Acapulco, também se dizia autora do coquetel, em 1948.

No mesmo ano, o bartender do Galveston, no Texas, dizia ter criado a mistura em homenagem à cantora Peggy (Margaret) Lee. Já Enrique Gutierrez diz ter inventado, em 1940, o coquetel para a atriz Rita Hayworth, em homenagem ao seu verdadeiro nome, Margarita Carmen Cansino.

Curioso, no caso da invenção da margarita, é que ninguém se diz autor de uma versão ou variante, como é comum no universo da coquetelaria. Todos se dizem criadores da mesma receita, preparada de maneira exatamente igual e com ingredientes nas mesmas proporções: uma dose e meia de tequila branca, meia dose de licor de laranja tipo triple sec, meia dose de suco de limão e três ou quatro pedras de gelo. Coloque os ingredientes na coqueteleira, bata vigorosamente e coe para um copo com “crusta” de açúcar. Teria sido uma inspiração coletiva?

Sem querer saber quem inventou a receita ou para quem, em 1971, o químico John Hogan, aficionado por cozinha ortomolecular, desenvolveu para o restaurante Marianos, em Dallas, a primeira máquina de frozen margarita e, como é de se supor, diante da popularidade destas máquinas, enriqueceu.

No obituário de Pancho Morales, seu filho, Gabriel, declara que seu pai jamais patenteou a bebida e nada lucrou com ela.

Um fato bem mais comum do que se pode imaginar. Em geral, um clássico passa para essa categoria quando roda o mundo e todo mundo conhece. Só então vale a pena investir e registrar a receita. Mas até lá….Por isso, numa receita que se quer preservar não pode faltar o famoso pulo do gato.

Boa semana para todos. Beijão

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Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.