Coquetéis

Perdão, Campari

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Tenho uma relação antiga e conturbada com o Campari. Tudo começou há muitos anos, quando, para me livrar de um programa que envolvia piscina e umas doses do referido bitter, aleguei ter nojo de piscina e achar a bebida cafona. Continuo com nojo de piscina, mas minha plantação de culpa ao longo dos anos só fez aumentar, à medida que fui descobrindo o que é que o Campari tem.

Apesar de quase ninguém admitir que o bebe, misteriosamente o Brasil é o terceiro maior consumidor mundial de Campari (quatro milhões de litros anuais). Em primeiro lugar está, é claro, a Itália, com 15 milhões; e em segundo vem a Alemanha, com sete milhões. É produzido pela própria Campari, nas cidades de Milão, Roma, Paris, Lugano, Barcelona e, adivinha onde mais? Barueri (SP).

Suas campanhas publicitárias, de muito bom gosto, já tiveram de Kelly Le Brock, “A dama de vermelho”, vestindo um Valentino, a Federico Fellini, que dirigiu para a Campari um filme de 60 segundos. Entre seus prováveis componentes – ao todo 65 – estão quinino, ruibarbo, boldo, camomila, cálamo, sálvia, angélica, rosmaninho, quássia, cascas de limão e de laranjas doce e amarga, além de absinto. Estes e outros ingredientes não declarados conferem à bebida um sabor doce-amargo sem similar ou concorrente. A sedutora e inigualável cor vermelha vem de cochonilhas fêmeas, pequeníssimos insetos, parasitas de várias plantas ornamentais e silvestres.

As bichinhas são moídas após serem secas e daí é extraído um líquido de coloração vermelha intensa e límpida. Sedutor, hum? Sem Campari, os famosos coquetéis Americano (Campari e vermouth tinto em partes iguais, gelo, soda e meia fatia de laranja) e Negroni (Campari e vermouth tinto em partes iguais, gelo, gim e meia fatia de laranja) simplesmente não existiriam, e fariam muita falta. Para me apoiar nas fases em que estou vigilante do peso – alterno entre vigilante e distraída – inventei alguns drinques à base de Campari, pois o danadinho ainda por cima é pouco calórico. Um dos meus favoritos é: uma parte de Campari, gelo (a única coisa que pode à vontade), suco de lima-da-pérsia e uma fatia de gengibre, que não tem nada a ver, mas ajuda a queimar calorias, eu acho.

Em outros casos, ele me salva de perder um investimento vínico. Explico: muitas vezes, mais do que vocês podem imaginar, eu me deparo com alguma garrafa de vinho branco que não é exatamente um primor. Tem aroma floral demais, um toque adocicado – algo assim, eu diria, sem querer ofender, “de menina”. Então, transformo meu vinho “de menina” em um robusto menino batizado de Campakir: boto meia dose de Campari em uma taça tipo flûte e completo com o vinho bem gelado. Com vinhos secos também dá certo. O Campari faz parte da minha lista das dez mais: as bebidas que não podem faltar em qualquer bar, comercial ou doméstico. Por tudo o que você é, em meu nome e de todos os que te desprezaram até hoje, eu te peço perdão, Campari! Salute!

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Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.