Cachaças

Por que mudou? Mudou por quê?

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No refrão da música “Por que parou? Parou por quê?”, de Moraes Moreira  o sujeito afirma categoricamente  “Parei porque vi violência/Parei porque vi confusão/Se a gente tomar providência/Desarma a polícia e o ladrão”.

Cachaça Magnífica

Cachaça Magnífica
Rótulo com o Pão de Açúcar

Não é o caso da cachaça Magnifica, feita em Miguel Pereira pelo queridérrimo casal Maria do Carmo e João Luiz de Faria. Eles não mudaram o rótulo da cachaça porque queriam e nem porque viram confusão. Ao contrario disso: quem anda a fazer confusão por aqueles tonéis, mais precisamente nos rótulos da cachaçaria, é o  Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que autuou a empresa por ter praticado infração ao disposto no Art.99, inciso IX, do Decreto 6.871/09 – “Rotulagem em desacordo com a norma legal vigente – denominação de procedência indicando ‘Rio de Janeiro’ com a figura do Morro da Urca, induzindo a erro quanto à origem das cachaças produzidas”.

O casal apelou para a Superintendência Federal de Agricultura (SISV/DDA/SFA-RJ),  que confirmou a multa. Recorreu, então, da decisão em Brasília, junto aos seguintes órgãos: Coordenação-geral de Vinhos e Bebidas (CGVB), Departamento de Inspeção de Produtos Origem Vegetal (Dipov) e Secretaria de Defesa Agropecuária (DAS). Todos julgaram “procedente” a autuação e ratificaram o julgamento em primeira instância. Ou seja, em termos de recursos legais, não há mais o que fazer. Os Faria preferiram mudar o rótulo da cachaça Magnifica a entrar em rota de colisão com os fiscais do SISV/DDA.

Só que eu não acho que se trata de entrar em rota de colisão com órgão nenhum. Eu quero entender que tipo de critério é esse?

No meu ponto de vista, essa decisão leva a uma ou várias discussões. A saber:

1) A cachaça “Leblon” não é feita no Rio de Janeiro, o que,  teoricamente, também levaria o consumidor ao engano.
2) A  “Pituconha” não tem o efeito da maconha. Isso também levaria o consumidor ao engano.
3) “Si sobrá nóis vende”:  quem prova que o que está sendo vendido é o que sobrou?  Isso também levaria o consumidor ao engano.

Eu poderia entrar nas questões fisiológicas, citando os  rótulos que prometem milagres no âmbito sexual. Ou ainda, psicológicas, quando alguns  rótulos prometem amansar esses ou aqueles personagens do nosso folclore. Todavia, reservo-me ao bom senso e me poupo, pedindo aos cidadãos que estão definindo tais critérios para que realmente “todos sejam iguais perante a Lei” e não fiquem submetidos ao arbítrio ou dependam da boa ou má vontade de um funcionário. Não é possível que num mercado onde mais de 90% dos produtores estão na clandestinidade, fazendo destilado que pode matar a população com nome de cachaça, tenhamos funcionários pagos com o meu, o seu, o nosso dinheiro avaliando a quantos palmos do Morro da Urca está sendo feita uma cachaça do Rio de Janeiro. Ou alguém aí tem dúvida de que Miguel Pereira está no Estado do Rio de Janeiro?

Cachaça Magnifica TradicionalA quem interessaria, de fato, não mostrar o Morro da Urca num rótulo de cachaça? Para quem fugiu da aula de geografia, sinto informar que, além de Miguel Pereira, Rio das Flores, Carmo, Quissamã, Agulhas Negras, Resende, Paraty…. todas essas agradáveis cidades do Rio de Janeiro também fazem cachaça. Aliás, vale lembrar que Paraty é até sinônimo de cachaça. Vão mudar os rótulos de todas?

Um magnifico abraço de solidariedade para a família Faria. O que são dois morros para quem tem a cidade?

 

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Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.