Águas

Que fonte é essa?

Por  | 

Todo animal, incluindo aí os irracionais, sabe que, para saciar a sede, qualquer água serve. Já nós, os racionais, vamos um pouquinho além, descobrimos que para matar quem tem o poder de nos matar, por falta ou contaminação, é melhor que a ambígua água seja natural e potável. Por ser vital à existência do espécime, seja de que tipo for, não se deve recusar servi-la a ninguém ou a nada. Não sei como é por aí, mas aqui em casa ainda se cria as pessoas ensinando a oferecer água a quem chega. Se o prato de água do cachorro estiver seco, é obrigação de quem viu primeiro encher. Para planta seca, a regra é igual.

Digo que não sei como é por aí porque foi preciso criar uma lei que obriga os estabelecimentos comerciais a servir água gratuitamente. É claro que a Lei 2.424, de 22 de agosto de 1995, refere-se a um copo de água que o passante com sede e sem dinheiro pede, e não àquela engarrafada, retirada de fontes profundas.

Duas coisas me deixam estarrecida com isso. A primeira é a necessidade de se criar uma lei que obrigue o ser humano a ser humano (sic!). Oi, desculpe?! A outra é imaginar o quanto se gastou de tempo e dinheiro para que a dita lei entrasse em vigor a fim de que o interessado, o necessitado saiba de sua existência. Claro que quem está precisando de um copo de água porque não tem dinheiro para pagar não vai bater na porta de um restaurante do Copacabana Palace. O sedento nem chega ao saguão do hotel. Ora me poupe!

Se investido em esclarecer as diferenças entre uma água potável e uma água mineral, o valor gasto na feitura dessa lei inútil pareceria insignificante. Mais um caso acadêmico para exemplificar o relativismo do tal custo x benefício.

Diferentemente das águas classificadas como simplesmente potáveis, que vêm de lençóis superficiais, as minerais são provenientes de lençóis profundos, que arrastam consigo a composição química do solo.

Existem diversos mananciais, geralmente a uma profundidade de 20 metros, que, reunidos em um ponto, abrem caminho através dos terrenos onde se encontram e surgem na superfície como se viessem de uma só fonte.

Ainda que pareçam uma construção natural, as fontes são montagens que exigem profundos conhecimentos técnicos de engenharia e mineralogia, de forma que se possa perfurar a rocha no ponto certo, a fim de captar a água dos lençóis profundos e trazê-la à superfície sem que ela se misture e seja diluída pelas águas virgens dos lençóis superficiais.

Invariavelmente, quem descobre novas fontes hidrominerais são os vaqueiros, pois o gado “fareja” cloreto de sódio (sal), elemento presente na maioria das águas minerais.

Há ainda outros componentes, que variam de fonte para fonte, o que torna cada uma delas singular. Algumas têm indicação terapêutica, caso das fontes de Cambuquira, em Minas Gerais. A fonte Regina Werneck, por exemplo, tem água carbogasosa e é indicada no tratamento de nefrite aguda ou crônica , além de estimular a secreção e a motricidade gástricas. Também é utilizada no combate à gastrite, doenças hepáticas, inflamação dos canais biliares, angiocolites, desordens intestinais, enterite, dermatoses, eczemas, eritemas e hiperemias.

Na fonte Dr. Sousa Lima, a água é sulfurosa e indicada no combate à colite e à gastrite, além de estimular os movimentos peristálticos dos intestinos. Entre muitas outras, a fonte Roxo Rodrigues, de água levemente gasosa, tem praticamente as mesmas características da fonte Regina Werneck, mas também é empregada no tratamento de casos de distúrbios emocionais, por conter lítio (antipsicótico).

Por essas e outras, é sempre bom e aconselhável dar uma viradinha na garrafa e ler de qual fonte vem a água mineral que você está bebendo.  Brincando, brincando, pode ser aquela água com gás que está aumentando sua pressão, pois, em geral, elas contém sódio. Então, se liga na fonte!

Boa semana para todos, um beijão e até domingo.

Deixe seu Comentário!

comentários

Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.