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Temas atuais estimulam debate durante o terceiro dia do XV Congresso Latino-Americano de Viticultura e Enologia

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O XV Congresso Latino-americano e o XIII Congresso Brasileiro de Viticultura e Enologia chegou ao seu terceiro dia de palestras nesta quinta-feira, 5. Divididas nas áreas de viticultura e enologia, as palestras ocorreram de maneira simultânea. Até o dia 7, o evento abordará temas de relevância relacionados à pesquisa, produção, consumo e diversos outros aspectos que serão divididos com os mais de 500 participantes inscritos.

Automação/mecanização na viticultura foi o tema da conferência que abriu os trabalhos nesta quinta-feira. Durante a sua apresentação, o engenheiro Maurício Copat (Brasil) deixou claro que a mecanização só é possível de ser implantada em áreas planas, nos vinhedos que foram projetados para a sua utilização, com postes metálicos e obrigatoriamente que apresentarem uma uniformidade das plantas. Apresentou equipamentos de colheita, poda, manejo do solo e monitoramento. A mecanização apresenta-se como uma excelente alternativa para a redução da mão de obra e aumento da qualidade, aplicável a áreas como a Campanha Gaúcha, mas ainda não apresenta alternativas de equipamentos para uso na Serra Gaúcha.

A segunda conferência abordou um tema bastante polêmico e inovador: Viticultura Biodinâmica: experiências e perspectivas na contribuição de uma viticultura sustentável e de qualidade. Com experiência de quinze anos atuando na área, o argentino Dr. René Piamonte (Argentina) falou sobre a trajetória exitosa de diversas vinícolas que adotaram o uso de preparados homeopáticos e o manejo realizado com base no calendário astronômico. O novo sistema, bastante difundido no Chile e na Argentina, gera produtos diferenciados, produzidos em harmonia com a natureza e que recebem uma certificação especial.

 

ENOLOGIA

Com o tema geral Polifenóis e qualidade dos vinhos, Os painéis de Enologia iniciaram com a palestra do Dr. Cédric Saucier (França), que dissertou sobre as Implicações das variáveis tecnológicas sobre a evolução química dos vinhos. Saucier ressaltou as características francesas e o comportamento do consumidor, especialmente e vinhos do tipo rosé. “Temos uma tendência no sul da França em ver o rosé com uma cor um pouco mais leve, natural, mas com alguns tratamentos. É a cor que vem do sul da França e outras regiões que tentam conseguir, o que é delicado”, ressaltou.

Dando continuidade, o Dr. Giuliano Elias Pereira  (Brasil), ministrou a palestra Composição química de uvas e vinhos resultados obtidos na região, na qual apresentou dados sobre a produção de vinhos no Vale do São Francisco. Atualmente, a região usa cerca de 15 variedades de uvas, sendo a Syrah para tintos a mais emblemática. O Vale do São Francisco possui cerca de 60 rótulos comerciais, sendo espumantes com uma repercussão e aceitação de mercado muito grande.  A região hoje busca o processo de Indicação Geográfica do Vale, inclusive auxiliando empresas na obtenção da I.G.

As palestras da manhã encerraram com Dr. Celito Guerra (Brasil),  com o tema Evolução química de vinhos sob efeito das variedades e região de produção , que ressaltou a mudança no panorama no que concerne a regiões produtoras de vinhos. “Antes falávamos no Rio Grande do Sul como referência. Atualmente, o quadro é outro, com regiões produtoras diferentes, com grande potencial”, avaliou. Guerra também ressaltou que o trabalho da Embrapa inclui se preocupar em estudar formas válidas para que enólogos tenham uma ferramenta válida para aplicar em suas vinícolas e que possam estabelecer critérios e diferenças que ajudem a entender as novas regiões produtoras.

A tarde foi dedicada a Espumantes.  O crescente mercado da bebida, sobretudo a posição que o Brasil vem conquistando,  impulsionou o ciclo de palestras, que iniciou com o Dr. Jean-Pierre Valade (França), com o tema Obtenção do vinho base: o exemplo da Champagne. Valade ressaltou as principais características da região e o “segredo”:  “Buscamos o equilíbrio e a fineza, com a valorização das cepas e terroirs, usando sobretudo  a experiência do enólogo”, revelou. O palestrante ainda apresentou dados que atestam que a produção e consumo de proseco é, atualmente, mais representativa na região.  Aproveitando o espaço em uma palestra que teve o tom de troca de experiências, Jean enumerou itens para o caminho do sucesso: marketing comum, nome comum, história da bebida, fatos geográfico, qualidade média entre as produções, originalidade, entender o mercado consumidor e buscar a naturalidade nas bebidas.

A tarde ganhou voz feminina na palestra da Dra. Claudia A. Stefenon, que dissertou sobre Novas abordagens em vinhos espumantes, tratando, inclusive, a bebida como um alimento funcional. “O vinho espumante tem a sua composição associada com a  redução da incidência de varias doenças como aterosclerose; Parkinson, Alzheimer, câncer, desde que o consumo seja moderado”.

Elementos para melhorar e valorizar os espumantes finalizou as palestras dedicadas a Enologia desta quinta-feira. Ministrada novamente por Dr. Jean-Pierre Valade, a palestra traçou um comparativo entre espumantes e cerveja, no que diz respeito a bolhas e espuma, tornando seu discurso mais palpável . Apresentou elementos que influenciam na estética do espumante servido, propondo um rápido quiz com a plateia sobre o assunto. Concluindo que formato de taça, modo de lavagem e secagem, armazenamento, material e até mesmo idade do cristal ou vidro influenciam diretamente na estética da bebida, podendo valorizar ou não o espumante servido.
VITICULTURA

Abrindo o painel sobre as Ameaças fitossanitárias para a viticultura, o Dr. Lucas Garrido (Brasil) falou sobre as principais Doenças do lenho que ocorrem no Brasil. Além de apresentar os sintomas e forma de controle, Garrido apontou que as mesmas sempre são deixadas para serem tratadas em segundo plano, o que em geral faz com que se torne impossível a sua recuperação, ocasionando o declínio e a morte de plantas. Ao abordar o tema das Doenças virais e causadas por fitoplasmas e seus vetores, Dr. Nicola Fiore (Chile) foi enfático em orientar que além do monitoramento dos vetores (cochonilhas e cigarrinhas), a realização de análises em laboratórios é fundamental para a correta identificação dos patógenos. Encerrando o painel, o Dr. Cláudio Ioratti (Itália) falou sobre os Insetos-praga da videira que são ameaças à viticultura. Apresentou dados preocupantes como a estatística de que nos últimos 20 anos, de uma a quatro novas pragas tem sido introduzidas na Europa a cada ano, principalmente nos principais destinos turísticos como França e Itália. Isso tem gerado enormes perdas financeiras aos produtores. Por outro lado, também demonstrou o êxito obtido na Califórnia relacionado a erradicação da traça dos cachos Lobesia botrana. Todos os palestrantes foram unânimes na necessidade de disponibilizar mudas de qualidade e no alerta do perigo de introdução de material vegetativo. Para finalizar, foi reforçado que o mundo está globalizado e nenhum país ou região produtora de uvas está imune da introdução de novas pragas e doenças. Por essa razão, cada vez mais será necessária a interação e troca de experiências entre pesquisadores dos diferentes países como forma de garantir a sustentabilidade da viticultura internacional.

No painel sobre Variedades resistentes: a intersecção entre a rusticidade da uva e qualidade do vinho foram apresentadas as experiências alemã, francesa e brasileira. Independente da nacionalidade, todos os programas de melhoramento genético buscam no desenvolvimento de novas variedades resistentes a doenças, para garantir uma vitivinicultura mais sustentável. Segundo o Dr. Rudolf Eibach (Alemanha), atualmente 3% dos parreirais na Alemanha são plantados com híbridos. Destacou que tanto os produtores como os consumidores alemães são bastante conservadores e confiam nas variedades tradicionais e que muitas vezes ao se divulgar os benefícios das novas cultivares resistentes mostra-se a fragilidade das tradicionais, o que gera um certo desconforto. No entanto, ele acredita que a preocupação com o meio ambiente, os bons resultados obtidos com as novas variedades e o vinho de qualidade irá atrair novos adeptos.

A experiência francesa apresentada pelo Dr. Hernan Ojeda (França) também mostra características de resistência à adoção de novas cultivares que não as tradicionais na elaboração de vinhos, mas tem encontrado uma boa aceitação nas cultivares para a produção de suco, um mercado incipiente no país. Já a Dra. Patricia Ritschel (Brasil) apresentou a exitosa experiência brasileira na adoção das novas cultivares de mesa ou para a elaboração de produtos, desenvolvidas pelo Programa de Melhoramento Genético da Embrapa Uva e Vinho. Além de apresentar as características das cultivares, trouxe depoimentos de produtores apresentando pontos positivos ao seu uso. No caso brasileiro, foi apontada a necessidade da criação de marcos legais para que as novas cultivares híbridas sejam autorizadas para a elaboração de vinhos finos.

 

PANORAMAS

Ao apresentar o Panorama vitivinícola da Argentina, o enólogo Abel Furlan falou das diferentes regiões produtoras e destacou que o vinho argentino é declarado como uma bebida nacional, mas também é considerado um alimento e pertence a cesta básica. Apresentou o interessante exemplo do vinho turista, regulamento dos restaurantes de Mendoza que exige que todos os restaurantes ofereçam um vinho de qualidade com um preço acessível.

Um dado interessante apresentado pelo enólogo Cristián Aliaga, no Panorama vitivinícola do Chile é que a vitivinicultura acontece de norte a sul do país e tem como foco a exportação de seus vinhos, sendo o primeiro país latino-americano e o quarto no ranking das exportações mundiais. Outro dado representativo é que 85,8 % dos vinhos chilenos produzidos são com Denominação de origem.

Encerrando a programação do dia, os participantes puderam degustar diferentes Espumantes brasileiros.

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Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.