Vinhos

Um brinde ao ‘Nouveau’

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Em 1801, a notícia de que Portugal e Espanha estavam em guerra demorou três meses para chegar ao Rio Grande do Sul. Quando o capitão de armas quis tomar alguma providência, a guerra já havia acabado. Recentemente, nas eleições para prefeito, soubemos quase em tempo real, durante a apuração, quais seriam os estados em que a decisão ficaria para o segundo turno. Esta rapidez com que a informação nos chega diariamente provoca-nos ansiedade e, contraditoriamente, um desmedido ar de “e daí?” para praticamente tudo.

No mundo do vinho, o movimento “Le Beaujolais est arrivé!” é um exemplo do quanto estamos perdendo com o estilo de vida imediatista que levamos.

Desde o século XVI, os franceses da Borgonha bebem beaujolais nouveau todos os anos, na terceira quinta-feira do mês de novembro, para comemorar a chegada de uma nova safra. O primeiro lote comercializado fora da região foi para Paris, quando os parisienses – então às vésperas da Revolução Francesa – adotaram a ideia de comemorar a chegada da nova safra.

Na França, as novas safras só podem ser comercializadas a partir do dia 15 de dezembro. Há 55 anos, no entanto, a legislação francesa reconheceu a especificidade dos vinhos beaujolais nouveau, e liberou sua venda mais cedo. Isso porque eles são feitos com maceração carbônica, cujo processo consiste em não esmagar as uvas, deixá-las inteiras e intactas dentro de uma cuba de gás carbônico, mantendo a acidez e reduzindo os taninos ao máximo, resultando em vinhos frutados, cheios de vida, para serem bebidos novos. Se demorar muito, perdem o frutado e a razão de ser.

A medida possibilitou ao beaujolais nouveau ser, todos os anos, o primeiro vinho a chegar ao mercado europeu. Desde então, esse momento passou a ser assinalado com festividades locais. Por volta dos anos 60, já era um evento de nível nacional. Inteligentes, os produtores perceberam o potencial de marketing que tinham nas mãos e resolveram a internacionalizá-lo.

Em uma operação de logística e loucura, passaram a distribuir os nouveaux para países como Estados Unidos, Austrália, Japão e Brasil…São 200 no total. A partir da meia-noite da terceira quinta-feira de novembro, a intenção é que todo o mundo possa receber o mesmo vinho, se possível ao mesmo tempo, criando assim uma confraternização globalizada.

A idéia é sensacional: imagine-se hoje (o vinho chegou ontem!) ao cair da tarde, confraternizando com um mundão de pessoas. São aproximadamente 125 milhões de litros de vinho, distribuídos em taças de 150 ml. É gente à beça!

Por alguma razão, esqueceram o motivo principal da festa e passaram a julgar não somente a qualidade do beaujolais nouveau, bem como de todos os vinhos da região, que conta ainda com beaujolais, beaujolais villages e crus. Todos vinificados de uvas gamay. Ideais para o nosso clima.

É bem verdade que para um vinho primeur, o nouveau tem chegado um tanto caro por aqui. Este ano, com a alta do dólar, o beaujolais nouveau de Joseph Drouhin – que chegou no voo da Air France AF 454, importado pela Mistral – custará  R$ 87,80 a garrafa. E daí? Daí que ainda prefiro procurar meus amigos festeiros e dividir uma garrafa a ficar reclamando da crise. Não vou perder a oportunidade de comemorar mais uma safra, seja boa ou ruim. É o novo que chega, e eu quero festejar.

Não posso esquecer das clássicas combinações: queijo de cabra e sancere; stilton e vinho do Porto; e münster e gewürztraminer.

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Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.