Vinhos

Vinhos “ciganos”

Por  | 

Ser cervejeiro cigano não chega mais a ser novidade. Mas e produtor de vinhos cigano, você já viu por ai? Pois conheça Luiz Carlos Cattacini Gelli, da Cattacini Vinhos, marca criada por este engenheiro eletricista carioca que nunca teve uma vinícola, mas já criou onze rótulos, em parceria com grandes marcas nacionais da bebida, como Miolo, Salvati, Dom Giovanni (todas de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul), Santa Augusta (Videira, Santa Catarina) e Ouro Verde (Casa Nova, Bahia). Com o apoio da estrutura de cada uma, ele elaborou um ou dois produtos. De sua cabeça, jorram ideias em forma de vinho:

“No século XIX, na França, era necessário alguém para fazer a ponte entre o consumidor e o produtor. Hoje é bem mais fácil acessar o consumidor. Faço um pouco como antigamente: vou a uma vinícola que conheço, depois de estudar sobre ela, seus equipamentos e pessoal, vejo o potencial que ela tem e faço uma proposta. Por exemplo, no mundo, 90% dos Gewurztraminer são meio adocicados. O meu Clos Cattacini – Gewurztraminer 2014 (desenvolvido em conjunto com a Vinícola Luiz Argenta, em Flores da Cunha, RS), é seco, pois quis colocá-lo no carvalho francês. E acabei ganhando com ele a medalha de prata no GP Vinhos do Brasil”, exemplifica Gelli, que nada tem de nômade nem ostenta joias sob camisa social aberta, como os ciganos clichês das novelas.

Cattacini Vinhos Ciganos

Luiz Carlos Cattacini Gelli, da Cattacini Vinhos

Então de onde vem esta associação? O método cigano de produção é um dos preferidos por pequenos cervejeiros que pretendem introduzir seus rótulos artesanais no mercado, mas ainda não têm capital inicial para bancar suas próprias fábricas. A saída encontrada por eles é “pegar emprestada” a estrutura de terceiros, a fim de produzir as receitas, migrando, quando necessário, para outra fábrica, sem lar fixo. Daí o termo. Uma trajetória que lembra a de Gelli, que em seu site explica que sua empresa faz “vinhos de autor”.

“Sempre tive o sonho de fazer vinhos. Trabalhava no setor elétrico, em Furnas, e me perguntava como poderia mudar de vida de repente. Comecei na Miolo. Em 2008, eles lançaram o primeiro curso da América Latina de wine maker. Aprendemos a plantar, colher, vinificar… Pensei: vou nessa!. Foi uma porta aberta para eu propor meu primeiro vinho. No início, eles ficaram um pouco reticentes. Afinal, era um carioca (se eu fosse gaúcho, pelo menos, seria mais fácil!) chegando com uma ideia dessas. Dali fui expandindo o projeto, fiz cursos, inclusive na Itália. E descobri que o mais difícil é vender. Como engenheiro, calculei tudo, menos isso”, brinca ele, hoje aposentado, à espera de colher os frutos da nova empreitada.

O primeiro vinho foi lançado em 2010, com a Miolo. Um Merlot. De lá para cá, vieram vinhos de uvas como Peverella e Chenin Blanc, além de espumantes.

“Sou eu que vou avaliar, digo se fica ou sai da barrica, essas coisas. Cada parceiro tem uma forma própria de trabalhar. Dependendo do caso, compro as uvas ou o vinho, rolha, garrafas, barricas. Conforme o vinho e a safra, produzo de 600 a 1800 garrafas. Trago uma parte do resultado para comercializar, divulgar e vender no Rio”, explica ele, que tem seus produtos vendidos em restaurantes estrelados, como Zuka, Sushi Leblon, Quadrucci, CT Boucherie, Brigites e Mr Lam, na Zona Sul do Rio, e também os comercializa em lojas virtuais.

O 11º rótulo da Cattacini foi lançado recentemente, inaugurando uma linha mais básica, ecológica. A primeira linha é mais sofisticada. Seus vinhos custam entre R$ 60 e R$ 80 (como o Clos Cattacini – Trebbiano Romagnolo 2014, que é o único do gênero no Brasil). Já o Zuim – um tinto oriundo na Serra do Marari, Tangará (SC), a 1200 metros de altitude, e produzido em parceria com a Vinícola Santa Augusta, de Videira (SC) -, da nova linha, gira em torno de R$ 50. “Os rótulos seguem um padrão que é meu. Tem uma pessoa que os faz para mim, mas trabalha de acordo com o que eu quero: nome, cores… Em geral, eles são azuis, pois sou apaixonado por esta cor. Fiz até o vinho Azzul, com dois “Z”s porque tenho dois sobrenomes com consoantes dobradas: Cattacini e Gelli. Também uso muito o símbolo de Sagitário, que é o meu signo. Nasci em 18 de dezembro e adoro ser de Sagitário”, complementa ele.

Deixe seu Comentário!

comentários

Deise Novakoski

Atualmente, Deise Novakoski exerce a função de sommelière e bartender, trabalha como consultora na Academia da Cachaça e no Torna Pub e assina a coluna “Você tem Sede de Quê?”, publicada em seu site.